Primeiro monte seu urdume, depois você trama PAN # 06


Minha mestra têxtil Sylvia Ribeiro diz “um urdume bem montado é meio caminho andado”. Sendo assim: primeiro monte seu bom urdume estrutural, depois trame.

Esse urdume pessoal e intrasferível começa a ser montado ainda no útero de mãe, nasce das observações do entorno. Todo sentido, cheiro, olhar, som, paladar, todo toque, tudo percebido, tudo vivido até nossa vida adulta é matéria desse urdume de vida, teu esqueleto, teu eixo de sustentação. É a base da tua trama, e a grande maioria desse aprendizado, todos os traumas, medos, bloqueios, desejos, sonhos, todo mais mistério e divino daquilo que posso chamar de meu-eu, está inconsciente. A minha consciência luta para não ceder a toda cultura que aprisiona.
tecelagem manual, tramas experimentais, prosa têxtil com Alexandre Heberte


Dito isto, tear montado, teço. Tramo meu movimento de cura. Na prática tramo e quero a ausência de pensamento durante quinze minutos, trinta, quem sabe uma hora assim, o dia todo. Ausente do mundo, não de mim. Atento a cada respiração, o ar entra, o ar sai. Somente isso. No começo o inconsciente vai fazer emergir uma série de assuntos para você lidar, tratar, ficar pensando, para te fazer esquecer que é não pensar em nada. Quando você percebe, já vieram vários pensamentos um atrás do outro; coisas do dia, de semanas passadas, ou de traumas e crenças que te acompanham desde muito tempo. Para ausência do pensamento você tem que se ligar nessa manobra inconsciente que te faz apenas coautor da própria existência, por que sem perceber você é levado a vida inteira para essa cadeia complexa do pensar sem se dar conta. Desligar. Parar. Permitir o nada. Permitir o ócio, se permitir uma hora do dia não ser de ninguém. Ser só seu, no vazio e silêncio da mãe natureza.  Você pode trabalhar na beleza da concentração, sem pensar em mais nada, você, tua trama, teu tecido manual. Que trama tece na vida?

Essa pratica me leva a uma consciência mais poderosa. Por que com o passar do não pensar em nada, no dia a dia, enquanto vivo presente, fico esperto sobre assuntos que chegam do inconsciente sem terem sido solicitados. E me pergunto? Por que a minha mente me traz esse assunto agora, que quer me dizer? Será que esse tal assunto que vem a superfície são os mesmo que durante a vida, não curei, não tratei, varri para debaixo do tapete e me perseguem, como ferida social aberta?

E quanto mais ligado fico nas mensagens que meu inconsciente trás, mais perto do meu corpo me resolvo.

(esse texto faz parte da edição virtual #PAN, organizado pelo super Jackson Araujo.




Alexandre Heberte

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